Tesouro prefixado ou selic: a simulação abaixo aplica R$50.000 por 5 anos e mostra qual dos dois trava mais valor, agora que o corte da Selic ficou mais distante do que o mercado esperava.
Até maio de 2026, a aposta do mercado era clara: a Selic ia cair de forma consistente ao longo do ano, e quem estivesse no Tesouro Selic simplesmente acompanharia essa queda sem precisar decidir nada. O Boletim Focus mudou essa conta. Nas últimas atualizações, o mercado revisou a projeção da Selic para o fim de 2026 de 13,25% para 13,50%, e a de 2027 de 11,25% para 11,50% — ou seja, os juros devem ficar altos por mais tempo do que se esperava há poucos meses. O Copom manteve a Selic em 14,25% ao ano na reunião de junho, e a próxima decisão só sai em 4 e 5 de agosto de 2026.
Esse adiamento muda o cálculo de quem está decidindo entre tesouro prefixado ou selic para uma reserva de médio prazo. Travar uma taxa prefixada acima de 14% ao ano parece atraente quando o corte de juros está próximo — mas fica ainda mais atraente quando esse corte demora. Este artigo simula os dois caminhos com números líquidos e mostra em que ponto um passa a compensar mais que o outro.
Tesouro prefixado ou selic: por que essa decisão mudou depois do Copom de junho
A diferença entre os dois títulos é estrutural, não cosmética. O Tesouro Selic é pós-fixado: a rentabilidade acompanha a Selic dia a dia, sobe quando a Selic sobe e cai quando a Selic cai. Quem está nele nunca precisa “acertar” o timing do ciclo de juros — o título faz isso automaticamente. O Tesouro Prefixado funciona ao contrário: a taxa é travada no momento da compra e não muda mais, não importa o que o Copom decida depois.
Isso significa que a escolha entre os dois títulos é, na prática, uma aposta sobre a velocidade da queda de juros. Se a Selic cai rápido, quem travou o prefixado sai na frente — continua recebendo a taxa alta enquanto o pós-fixado já está rendendo menos. Se a Selic demora para cair, ou cai menos do que o esperado, essa vantagem do prefixado só aumenta, porque o pós-fixado passa ainda mais tempo rendendo abaixo da taxa que poderia ter sido travada.
É exatamente esse segundo cenário que o mercado passou a precificar a partir de junho de 2026. A revisão do Focus para cima nas projeções de Selic de 2026 e 2027 não é uma mudança sutil — é o mercado dizendo que o ciclo de corte de juros vai ser mais lento do que se imaginava. E quanto mais lento o corte, mais tempo o Tesouro Prefixado trabalha a favor de quem travou a taxa antes.
Vale lembrar que o texto Selic em queda: o que muda nos seus investimentos e como se posicionar antes da virada tratou desse mesmo ciclo de juros sob a premissa de um corte mais rápido. Este artigo parte do cenário revisado — mais lento — e mostra que, mesmo nele, a lógica de travar a taxa se mantém.
Tesouro prefixado ou selic: simulação com R$50 mil mostra quanto cada um rende em 5 anos
Para tirar a decisão do campo da opinião, a simulação abaixo aplica R$50.000 por 5 anos em três cenários: o Tesouro Prefixado travado na taxa atual, o Tesouro Selic seguindo a curva de queda que o Focus projeta hoje, e o Tesouro Selic em um cenário ainda mais lento — o de juros “mais altos por mais tempo”.
Três cenários: prefixado travado vs. pós-fixado em queda
| Cenário | Valor líquido em 5 anos | Ganho líquido | Diferença vs. Prefixado |
|---|---|---|---|
| Tesouro Prefixado travado a 14,90% aa | R$ 92.611,66 | R$ 42.611,66 | — |
| Tesouro Selic — curva de queda do Focus | R$ 80.534,40 | R$ 30.534,40 | −R$ 12.077,27 |
| Tesouro Selic — juros caem mais devagar | R$ 85.967,53 | R$ 35.967,53 | −R$ 6.644,13 |
O resultado chama atenção pelo tamanho da diferença mesmo no cenário mais favorável ao pós-fixado. Se a Selic cair exatamente como o Focus projeta hoje, quem travou o prefixado termina os 5 anos com R$12.077,27 a mais, líquido de Imposto de Renda, do que quem ficou no Tesouro Selic. E mesmo se a queda de juros for ainda mais lenta do que essa projeção — o cenário que o próprio adiamento do Copom sugere como mais provável — o prefixado ainda vence por R$6.644,13.
Metodologia da simulação
A simulação parte de um aporte único de R$50.000, sem aportes mensais adicionais, com horizonte de 5 anos. O Tesouro Prefixado usa a taxa de referência de 14,90% ao ano, nominal e travada, correspondente a um título com vencimento por volta de 2031 — essa taxa varia diariamente com o mercado e deve ser conferida no Tesouro Direto antes de qualquer decisão. O Tesouro Selic foi simulado ano a ano com taxas médias decrescentes — 14,25% no primeiro ano, convergindo gradualmente até 9,50% no quinto ano no cenário base (Focus), e com uma queda mais lenta, até 12,00% no quinto ano, no cenário de juros mais altos por mais tempo. Em ambos os casos aplicou-se Imposto de Renda de 15% sobre o ganho — a alíquota mais baixa da tabela regressiva, válida para resgates acima de 720 dias — para manter a comparação em valores líquidos, sem viés para nenhum dos dois produtos.
O que muda se a Selic demorar ainda mais para cair
O ponto mais contraintuitivo da simulação não é que o prefixado vence no cenário base — é que ele continua vencendo mesmo quando o cenário piora para ele. Isso acontece porque a matemática do prefixado é simples: qualquer mês em que a taxa pós-fixada fica abaixo de 14,90% ao ano é um mês em que o pós-fixado perde terreno, e ele não recupera esse terreno depois, porque o prefixado já capturou aquele diferencial de forma definitiva.
Fazendo as contas ao contrário: para o Tesouro Selic empatar com o prefixado ao final de 5 anos, a taxa média da Selic no período inteiro precisaria ficar em torno de 14,90% ao ano — ou seja, praticamente sem nenhum corte de juros relevante até 2031. É um cenário que nenhuma projeção séria do mercado sustenta hoje, nem mesmo a versão mais conservadora do Focus.
Quando o pós-fixado ainda é a escolha certa
Essa conclusão não significa que o Tesouro Selic perdeu sentido. Ele continua sendo a opção certa em três situações específicas: quando o dinheiro é reserva de emergência e pode ser preciso a qualquer momento (o prefixado tem liquidez diária, mas com risco de marcação a mercado se vendido antes do vencimento); quando existe incerteza real sobre precisar resgatar o valor antes do prazo do título prefixado; e quando há risco relevante de a Selic subir em vez de cair — um cenário que voltaria a favorecer o pós-fixado automaticamente, sem que o investidor precise fazer nada.
O risco que fica escondido no meio do caminho: marcação a mercado
O ganho do prefixado na simulação acima só se realiza integralmente se o título for carregado até o vencimento. No meio do caminho, o preço de mercado do Tesouro Prefixado oscila todos os dias — sobe quando as taxas de juros de mercado caem, e cai quando elas sobem. Isso é a marcação a mercado, e é o motivo pelo qual o extrato de um Tesouro Prefixado pode mostrar saldo negativo em um determinado mês mesmo sem ter havido nenhuma perda real.
Um exemplo concreto: se um investidor trava hoje a taxa de 14,90% ao ano e, seis meses depois, novos títulos prefixados do mesmo vencimento passam a ser negociados a 13% ao ano — porque o mercado passou a acreditar em cortes mais rápidos —, o título antigo fica mais valioso, e o preço sobe. Mas se o oposto acontece, e as taxas de mercado sobem para 16% ao ano porque a inflação surpreendeu para cima, o título antigo perde valor de mercado, mesmo que o investidor continue com direito a receber os 14,90% ao ano prometidos caso segure até o final. Essa é a diferença entre perda contábil temporária e perda real: só existe perda de fato para quem vende antes do prazo.
Esse é o motivo pelo qual a simulação deste artigo assume que o dinheiro fica investido pelos 5 anos inteiros — é a única forma de garantir a taxa travada na prática, e é também o critério que deve pesar mais na decisão entre os dois títulos.
Tesouro Prefixado ou CDB prefixado: a mesma lógica, produtos diferentes
Bancos e corretoras também oferecem CDBs prefixados, que seguem exatamente a mesma lógica de taxa travada — a diferença é o emissor e a proteção do Fundo Garantidor de Créditos (FGC), que cobre até R$250.000 por CPF e instituição em caso de quebra do banco. Um CDB prefixado de banco médio pode oferecer taxas nominalmente mais altas que o Tesouro Prefixado — às vezes 15% a 16% ao ano — para compensar o risco de crédito adicional. Para quem já decidiu travar a taxa, vale comparar as duas opções antes de aplicar: o Tesouro tem o aval do governo federal, o CDB tem o aval do FGC até o teto de cobertura — ambos são considerados de baixo risco, mas não são idênticos.
Como decidir entre tesouro prefixado ou selic na prática
A decisão fica mais simples quando dividida em passos concretos, na ordem em que valem a pena ser avaliados.
Passo 1: Confirme se esse dinheiro tem prazo definido
Tesouro Prefixado só compensa para dinheiro que pode ficar parado até o vencimento. Resgate antecipado expõe o valor à marcação a mercado — o preço do título no meio do caminho, que pode estar abaixo do valor investido se as taxas de juros tiverem subido desde a compra.
Passo 2: Compare a taxa prefixada do dia com a Selic atual
A vantagem do prefixado só existe quando a taxa travada supera a Selic vigente por uma margem relevante — hoje, 14,90% ao ano contra 14,25% da Selic já é uma margem favorável, mas essa diferença muda diariamente e precisa ser conferida no momento da aplicação.
Passo 3: Escolha o vencimento de acordo com o seu horizonte
Um Tesouro Prefixado 2029 trava a taxa por menos tempo que um 2031 — quanto mais longo o vencimento, maior o efeito acumulado de uma taxa travada alta, mas também maior a exposição a mudanças de cenário ao longo do caminho.
Passo 4: Considere dividir entre os dois, em vez de escolher só um
Não é preciso apostar tudo em um título. Manter uma parte no Tesouro Selic para liquidez e outra travada no prefixado captura o melhor dos dois mundos — e é a estratégia que a maioria dos analistas de renda fixa recomenda para quem não tem certeza sobre o cenário de juros dos próximos anos.
O que o histórico de ciclos de juros no Brasil ensina sobre essa decisão
Esse não é o primeiro ciclo em que o mercado erra a velocidade do corte de juros. Em 2023 e 2024, o Copom também adiou cortes em relação ao que o Focus projetava alguns meses antes, pressionado por inflação de serviços mais resistente do que o esperado. Quem travou taxas prefixadas elevadas naquele período — muitas vezes acima de 11% ao ano, patamar considerado alto para os padrões daquele ciclo — colheu o mesmo tipo de vantagem que a simulação deste artigo projeta para o ciclo atual: o corte demorou, e cada mês de atraso aumentou a distância entre quem tinha travado e quem estava rolando taxa pós-fixada.
O padrão se repete porque a dinâmica é estrutural, não específica de um ciclo: o mercado tende a subestimar a persistência da inflação em momentos de aperto monetário, e o Banco Central historicamente prefere errar para o lado conservador — cortando devagar demais em vez de rápido demais — para não precisar reverter a política logo depois. Isso não garante que o padrão se repita da mesma forma em 2026, mas ajuda a explicar por que travar uma taxa alta, mesmo com a possibilidade de ela cair menos rápido do que o esperado, tende a ser uma aposta com viés favorável ao longo de ciclos de juros distintos.
O prefixado como parte da carteira, não como aposta única
A decisão entre tesouro prefixado ou selic não precisa ser binária. Quem já comparou CDB, Tesouro Selic ou Tesouro IPCA+: Onde investir em 2026 sabe que a renda fixa brasileira oferece combinações — e o prefixado entra nessa equação como o componente que aposta explicitamente na direção dos juros, enquanto o pós-fixado protege contra o cenário oposto.
O paralelo vale também para quem está do outro lado da mesma decisão de juros — endividado, não investindo. O artigo Vale a pena esperar a Selic cair para financiar um carro? mostrou que esperar a queda da Selic para tomar crédito pode sair caro quando o corte demora mais do que o esperado. A lógica é a mesma, espelhada: assim como esperar prejudica quem vai financiar, esperar sem travar prejudica quem está investindo — e a revisão do Focus para cima é exatamente o sinal de que essa espera ficou mais longa do que parecia em maio.
Para quem tem R$50.000 ou qualquer outro valor parado em Tesouro Selic sem necessidade de liquidez imediata pelos próximos 5 anos, a matemática atual favorece travar parte dessa posição em prefixado — não porque exista certeza sobre o que vai acontecer com a Selic, mas porque, mesmo no cenário mais conservador de queda de juros, a diferença já compensa o risco. A decisão final continua sendo pessoal e depende do prazo real de cada objetivo — mas ignorá-la, hoje, tem um custo que a simulação deixa claro em números.
